Fátima – que os maus sejam amigos

 

 

Esta semana, quando levava o Francisco para a escolinha, estranhei o seu silêncio matinal e na tentativa de saber o que se estava a passar, interpelei-o com uma pergunta banal: está tudo bem contigo?
– Não está, pai!
Perante esta resposta, curta e frontal, continuei o meu interrogatório: então o que se passa?
– Rezo muitas vezes para a guerra acabar e ela não acaba!
Confesso que estava à espera de ouvir outro tipo de preocupação e por alguns segundos fiquei sem saber bem como continuar o diálogo. Por outro lado, compreendi que o assunto da guerra o perturbava e não estava bem resolvido. A fim de saber mais pormenores da sua preocupação perguntei-lhe: como é que sabes que a guerra não acabou?
– Vi na televisão aqueles senhores com as casas destruídas e os meninos a deitarem sangue pela cara e pelas pernas. Olha que aquilo deve doer muito!
É verdade Francisco, infelizmente pelo mundo fora há muitos sinais de violência. Os Homens não se entendem, querem sempre mais dinheiro, poder e entra-se num “vale tudo” para se atingirem objectivos desejados, mesmo que isso obrigue a matar pessoas inocentes.
Olha, como é que costumas rezar para que a guerra acabe?
– Ó pai, eu rezo assim: Anjo da Guarda, que os maus sejam amigos e que a guerra acabe. Anjo da Guarda minha compaínha [companhia] guarda-nos na hora de noite e de dia!
É uma bonita oração, respondi com ar surpreendido.
– Pai, será que estou a rezar mal? – perguntou-me com um tom de preocupação.
Francisco, estás a rezar muito bem – sosseguei-o. Eu não era capaz de fazer melhor. Não deixes de o fazer, pois Jesus está muito atento aos meninos pequeninos. Um dia Ele disse isso muito claramente: «‘Deixai vir a Mim as criancinhas, não as estorveis: dos que são como elas é o reino de Deus. Em verdade vos digo: Quem não acolher o reino de Deus como uma criança, não entrará nele’. E, abraçando-as, começou a abençoá-las, impondo as mãos sobre elas» (Mc 10, 14-16).
– E Nossa Senhora disse aos Pastorinhos que a guerra ia acabar, não foi pai? – questionou ele já mais tranquilo.
Tens razão Francisco, Nossa Senhora disse que a guerra ia acabar, acrescentou, porém, uma coisa muito importante: «Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior».
– E houve mais guerras? – interrogou.
De facto de 1939 a 1945 o mundo viveu aterrorizado com aquela que foi denominada Segunda Guerra Mundial. Há até quem defenda que o seu início foi mesmo em 1938, quando a Alemanha invadiu e anexou a Áustria. Estiveram envolvidos muitos países com grande poder económico e até armas nucleares foram usadas. Houve mais de 50 milhões de mortos.
– Então ainda há guerra porque Deus quer?
Não, Francisco! Deus criou o Homem livre e quer de todo o coração que ele seja feliz. O problema é quando o Homem pensa que a felicidade está ligada ao dinheiro, ao poder e à realização de todos os interesses pessoais. Jesus, Filho de Deus, disse-o abertamente e apontou o caminho certo: são felizes os pobres em espírito, os humildes, os que amam a justiça e constroem a paz, os bons, os puros e até os que são perseguidos e insultados por causa da justiça e da Boa Nova de Jesus.
– Nesse caso, se eu quiser ter muitos brinquedos, ganhar sempre nas corridas e no futebol e não emprestar o tablet à Maria, estou a ser mauzinho? – interrogou, o Francisco.
Deduziste bem – retorqui com convicção. De facto, sempre que prejudicamos os outros só a pensar no nosso bem, estamos a proceder mal. Quando falamos de “guerra” vêm-nos à mente os grandes confrontos que existem em determinados países, mas esquecemo-nos das pequenas guerrinhas que existem no nosso dia-a-dia: na escola, no trabalho, com os vizinhos, na paróquia, enfim, tanto mal-estar que se podia evitar!
Mas, voltando ao tema da Segunda Guerra Mundial, que Nossa Senhora tanto queria que se tivesse evitado, houve ainda uma mensagem muito importante que transmitiu aos Pastorinhos: «Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja; os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia [25 de Março de 1984], que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz».
– Pai, tu falaste no rei onze…, quem era?
Pio XI, foi um Papa da Igreja Católica de 1922 a 1939.
– Foi como o Papa Francisco – interrompeu.
Sim, mas há muitos anos atrás. No tempo das aparições (1917) o Papa que guiava a Igreja era Bento XV, pelo que a primeira referência que se conhecesse de um papa relativa a Fátima é a de Pio XI.
O Papa, é também conhecido como o Bispo de Roma, o sucessor do Apóstolo São Pedro. É, por seu intermédio, que Jesus governa a Igreja. Ao Papa estão unidos os bispos e por sua vez a multidão dos fiéis. «Com efeito, em virtude do seu cargo de vigário de Cristo e pastor de toda a Igreja, o pontífice romano tem sobre a mesma Igreja um poder pleno, supremo e universal, que pode sempre livremente exercer» (CIC 882).
Fátima e a sua mensagem, sempre tiveram uma profunda ligação com o Papa, mas isso explico-te mais tarde, caso contrário vais chegar atrasado à escolinha.
– Fixe, pai!
Virgem Maria, rainha da paz, que os maus sejam amigos e haja entre os homens a paz de Jesus.

Delfim Machado

 

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