Lúcia de Jesus: um breve percurso biográfico e espiritual

Lúcia de Jesus nasceu a 28 de março de 1907 em Aljustrel, freguesia de Fátima, filha de Maria Rosa e António dos Santos. Era a mais nova de 6 irmãos e, até à data das Aparições de Nossa Senhora, o centro das atenções e dos mimos, como ela nos conta nas suas Memórias. Como tantas crianças da sua idade e do seu meio, foi-lhe confiado o pastoreio do rebanho da sua família, o que fazia na companhia dos seus primos Francisco e Jacinta com quem, em 1916, recebeu as visitas do Anjo de Portugal e, em 1917, as de Nossa Senhora, factos esses que transformaram radicalmente a sua vida.

Na verdade, uma leitura atenta das suas Memórias, revela-nos a profunda alteração que, a partir de então, ocorreu na vida da pastorinha Lúcia pois, apesar do esforço feito para permanecer na sombra dos seus primos, é possível perceber a parte dos sofrimentos anunciados por Nossa Senhora que tocou à Lúcia. Enquanto os seus primos gozavam do apoio e proteção dos seus pais, que desde o início acreditaram neles, a Lúcia passou, até ao fim, por mentirosa junto de sua mãe, que não poupou esforços para tentar que ela admitisse a sua mentira.

Para além disso, a Lúcia teve um sofrimento adicional que os seus primos não partilharam, pois terminado o tempo das Aparições, a sua vida continuou a mudar... perde a companhia dos seus primos no pastoreio, deixa o rebanho para aprender a ler, tal como Nossa Senhora pedira, perde o Francisco, o seu pai e a Jacinta, e vê-se sozinha com a missão recebida, exposta às solicitações de peregrinos e curiosos, tendo por única companhia e consolo o Coração Imaculado d’Aquela que lhe garantiu ser o seu refúgio e caminho para Deus.

Nesse momento delicado e difícil, Lúcia conhece aquele que foi para ela um segundo pai, D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria. Para a proteger da contínua afluência de peregrinos, D. José decide a sua saída da Cova da Iria, para dar entrada como educanda no Asilo do Vilar, entregue ao cuidado das Irmãs Doroteias. Antes da sua partida, Lúcia vê ainda cumprida a promessa que Nossa Senhora lhe fizera a 13 de maio de 1917: «Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez». Foi na despedida da sua amada Fátima, onde o Céu tinha tocado a terra, quando vacilava na sua decisão de seguir as indicações do Pastor que, na Cova da Iria, prestes a decidir ficar em Fátima, como ela própria conta, «senti a tua mão amiga e maternal a tocar-me o ombro e a tua voz restituiu a paz à minha alma: Aqui estou pela sétima vez, vai, segue o caminho por onde o Senhor Bispo te quiser levar, essa é a vontade de Deus.» (15 de junho de 1921). E obedece.

A obediência à vontade de Deus, manifestada através da Hierarquia da Igreja, torna-se então uma das características da sua vida; obediência que revestiu diversas formas, começando por aceitar a mudança de nome e não falar nas Aparições, passando pela redação das suas Memórias e fixação por escrito do Segredo, e terminando no cumprimento quotidiano do seu voto de obediência, próprio da sua condição de religiosa, tanto no Instituto de Santa Doroteia (1925-1948) como no Carmelo de Coimbra (1948-2005).

Neste horizonte de obediência e fidelidade à missão recebida, Lúcia dá cumprimento ao seu encargo de «fazer conhecer e amar o Imaculado Coração de Maria», transmitindo à Hierarquia os pedidos recebidos de Nossa Senhora, não só na Cova da Iria, mas também em Pontevedra (1925) e Tuy (1929), não descansando até que estes estivessem plenamente cumpridos. Simultaneamente exerceu um intenso apostolado epistolar, iniciado nos tempos de Doroteia, que cresce exponencialmente após a entrada no Carmelo, local onde alcança pleno cumprimento o convite a que se ofereça a Deus pela humanidade e se torne mensageira do triunfo do Coração Imaculado.

Dentro da sua relação com a Hierarquia, há que destacar a sua relação com os Papas, de um modo particular com o Papa João Paulo II a quem a história e a providência a uniu de um modo particular naquele dia 13 de maio de 1981, aquando do seu atentado, e com quem viveu uma profunda amizade espiritual. Na fase final da sua vida, Lúcia reza pelo Papa que está doente e o Papa reza pela Lúcia que está a morrer, e cujo último gesto é a leitura da mensagem que o Papa lhe enviara nessa manhã.

Lúcia de Jesus foi de tal modo uma personalidade marcante na vida da Igreja e do Mundo que, na sua morte, Portugal e certamente também uma parte do mundo, parou para assistir ao seu funeral, tendo inclusivamente sido decretado um dia de luto nacional para o dia 15 de fevereiro.

Em suma, tentar descrever uma figura como Lúcia de Jesus em tão poucas palavras é algo redutor, pois estamos diante de alguém que, ao longo da sua vida, tocou a vida de multidões de pessoas da Igreja e do Mundo, das mais variadas origens e posições sociais, desde as mais pobres, humildes e desconhecidas, a Reis, Chefes de Estado, Bispos, Cardeais e Papas.


Maria Benedita Costa, asm

 

| 2017-03-31 |

 

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