A lenda da imagem de cera do Menino Jesus de Praga

De que falamos quando falamos de lenda?
Quando nos referimos a uma lenda dizemos uma narrativa transmitida de pessoa para pessoa, de geração para geração, com a intenção de dizer e explicar acontecimentos que misturam factos reais com imaginários ou fantasiosos, e que se vão modificando através do imaginário popular.
Muitas vezes diz-se lenda para se dizer, depreciativamente, algo incrível de ter acontecido, ou sem fundamento de verdade. Mas talvez não seja tanto assim. A palavra lenda vem dessoutra latina – legenda – que significa «aquilo que deve ser lido», ora se deve ser lido é porque encerra um fundo de verdade.
Esta é a lenda, isto é, a legenda, «o que deve ser lido» e pode ser dito, sobre a imagem do Divino Infante, o Divino Reizinho, o Menino Jesus de Praga:

Nos tempos em que a mourama se assanhou e invadiu a desprecavida Europa, muitos conventos e mosteiros foram por ela destruídos e martirizados, tanto em Portugal como em Espanha. Ora, havia na Península um branco e pacífico mosteiro plantado junto ao mar; nele vivia em paz e oração uma grande comunidade de monges zelosos. Reza, pois, a história que antes da chegada dos cruéis mouros vivera ali uma comunidade de monges cristãos, e que à chegada dos ferozes fiéis de Maoma foram os monges assassinados e o mosteiro arrasado e abandonado às silvas, aos répteis e animais selvagens.
Ora como nenhum dos povos, seja da parte dos cristãos ou da dos mouros, se pode reclamar como senhor do tempo ou das eras, um dia a roda rodou e depois da guerra a doce paz voltou. E quando regressou a tranquilidade à Península, alguns dos antigos monges – não mais de quatro – com um pequeno punhado de jovens rapazes, por entre esperanças e lágrimas, deitaram mãos à reconstrução do velho e derruído mosteiro, com o intuito de lhe devolver a simplicidade airosa de outrora e a delicada vida fraterna que ali se vivera. E foi assim que os velhos monges e os jovens que o queriam ser deitaram mãos ao trabalho árduo, dedicando, pacientemente, o melhor dos seus dias à reconstrução do antigo mosteiro. Narram as páginas de um velho livro de crónicas recentemente descoberto na cave escura de um alfarrabista da judiaria de Amesterdão, que aquele punhado de homens trabalhou ali com o engenho de artistas afamados e a dedicação dos apaixonados. Dizem ainda as páginas gastas do tal livro de crónicas escritas em latim que um dos rapazes, na ânsia juvenil de ver a obra rapidamente concluída, labutava de sol a sol, nem se lembrando do sagrado dever de erguer as mãos para o céu e rezar!
Ora, certa vez, como sempre sucedia a meio do dia, os sinos tocaram solenemente as Trindades. E mais aquela vez o jovem noviço, desprevenido, se olvidou de as rezar, de tão absorvido que estava em seu labor. Discretamente e sem aviso, veio um manso menino, que abeirando-se do rapaz lhe disse: «Não é teu dever rezar as Trindades?» Caindo o jovem noviço em si lembrou-se de que levava dias seguidos em que o afã do trabalho o impedira de rezar, e ajoelhando em terra prontamente semicerrou os olhos para, devotamente, rezar o Angelus. Quando por fim os abriu para agradecer aquela lição já o menino desaparecera! Procurou-O então pelo mosteiro fora, no claustro e nos jardins, nos locutórios e nos recantos dos altares, mas nunca mais alcançou encontrar aquele que tão alta e sábia lição lhe dera!
Foi por isso pensando se aquele menino não seria o Menino Jesus. E em memória daquela lição, procurou juntar ao longo da sua vida, as lágrimas de cera das velas do altar, que depois ia modelando com terno e delicado amor. A cada fim do dia, depois de apagadas as velas, diligente recolhia as lágrimas que desciam vela abaixo e aquecendo-as de novo procurava moldar a beleza daquela visão de outrora, que se lhe restava cada vez mais longínqua. E lá procurar procurava ele, como rezam as páginas da velha crónica, mas nunca alcançava modelar dignamente aquele tão belo rostinho do menino que o devolvera ao sagrado dever da oração.
E foi assim que passando a vida a modelar e a modelar e a modelar a cera branda, o jovem noviço depressa se fez velho monge, tão velho e tão sábio que soube por fim fazer da sua vida uma oração, daquela que nem todos os Guardiões sabem reconhecer e agradecer, mas que todos os dias atrai a beleza do céu à terra. Sim, aprendera por fim, a viver em uma oração constante e piedosa, como uma fonte donde brotava a beleza do rosto do Menino Jesus!
Sendo já muito muito velho, certo dia o monge modelador não se levantou pela alva, nem para rezar nem para comer. Foram os demais procurá-lo em sua cela. E viram-no morto. Havia falecido nessa noite... Ao colo jazia a imagem de cera do Menino Jesus, aquela que por tantos anos se afadigara por concluir. Terminara-a, por fim, na última noite da sua vida sobre a terra. E agora jazia sentado no chão da cela, com o Menino ao colo.
Tinha, apesar de morto, um sorriso nos lábios.

Frei João Costa, ocd

 

| 2017-07-02 |

 

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